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 Poesias:

Manoel Bandeira

Epígrafe

 

Sou bem-nascido. Menino,

Fui, como os demais, feliz.

Depois, veio o mau destino

E fez de mim o que quis.

 

Veio o mau gênio da vida,

Rompeu em meu coração,

Levou tudo de vencida,

Rugiu como um furacão,

 

Turbou, partiu, abateu,

Queimou sem razão nem dó –

Ah, que dor!

                   Magoado e só,

- Só! – meu coração ardeu:

 

Ardeu em gritos dementes

Na sua paixão sombria...

E dessas horas ardentes

Ficou esta cinza fria.

 

- Esta pouca cinza fria...

                                                                                              1917

 

(Manoel Bandeira, 1993, Estrela da Vida Inteira, p. 43)

 

 

A minha irmã

 

Depois que a dor, depois que a desventura

Caiu sobre o meu peito angustiado,

Sempre te vi, solicita, a meu lado,

Cheia de amor e cheia de ternura.

 

É que em teu coração ainda perdura,

Entre doces lembranças conservado,

Aquele afeto simples e sagrado

De nossa infância, ó meiga criatura.

 

Por isso aqui minh’alma te abençoa:

Tu foste a voz compadecida e boa

Que no meu desalento me susteve.

 

Por isso eu te amo, e, na miséria minha,

Suplico aos céus que a mão de Deus te leve

E te faça feliz minha irmãzinha...

 

Clavadel, 1913

 

 

(Manoel Bandeira, 1993, Estrela da Vida Inteira, p. 63)

 

 

Balõezinhos

 

Na feira livre do arrebaldezinho

Um homem loquaz apregoa balõezinhos de cor:

- “O melhor divertimento para as crianças!”

Em redor dele há um ajuntamento de menininhos pobres,

Fitando com olhos muito redondos os grandes balõezinhos muito redondos.

 

No entanto a feira burburinha.

Vão chegando as burguesinhas pobres,

E as criadas das burguesinhas ricas,

E mulheres do povo, e as lavadeiras da redondeza.

Nas bancas de peixe,

Nas barraquinhas de cereais,

Junto ás cestas de hortaliças

O tostão é regateado com acrimônia.

 

Os meninos pobres não vêem as ervilhas tenras,

Os tomatinhos vermelhos,

Nem as frutas,

Nem nada.

Sente-se bem que para eles ali na feira os balõezinhos de cor são a única

                                       [mercadoria útil e verdadeiramente indispensável.

O vendedor infatigável apregoa:

- “O melhor divertimento para as crianças!”

E em torno do homem loquaz os meninos pobres fazem um círculo ina-

                                                                    [movível de desejo e espanto.

 

 

(Manoel Bandeira, 1993, Estrela da Vida Inteira, p. 120).

 

 

 

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