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93
Não tenho
sinceridade nenhuma que te dar.
Se te falo,
adapto instintivamente frases
A um sentido
que me esqueço de ter.
[22/1/1929]*
(Fernando Pessoa – Álvaro de Campos, 2002, Poesia,
p.319).
111
Ah, no terrível
silêncio do quarto
O relógio com o
seu som de silêncio!
Monotonia!
Quem me dará
outra vez a minha infância perdida?
Quem ma
encontrará no meio da estrada de Deus –
Perdida
definitivamente, como um lenço no comboio.
16/8/1929
(Fernando Pessoa – Álvaro de Campos, 2002, Poesia,
p.343).
127
Estou cansado
da inteligência.
Pensar faz mal
ás emoções.
Uma grande
reacção aparece.
Chora-se de
repente, e todas as tias mortas fazem chá de novo
Na casa antiga
da quinta velha.
Pára, meu
coração!
Sossega, minha
esperança factícia!
Quem me dera
nunca ter sido senão o menino que fui...
Meu sono bom
porque tinha simplesmente sono e não idéias que esquecer!
Meu horizonte
de quintal e praia!
Meu fim antes
do princípio!
Estou cansado
da inteligência.
Se ao menos com
ela se percebesse qualquer coisa!
Mas só percebo
um cansaço no fundo, como baixam na taça
14
Aquelas coisas
que o vinho tem e amodorram o vinho.
18/6/1930
14 Variante
sobreposta a “baixam”: “pairam”
(Fernando Pessoa – Álvaro de Campos, 2002, Poesia,
p. 364).
128
Diagnóstico*
Pouca verdade!
Pouca verdade!
Tenho razão
enquanto não penso.
Pouca
verdade...
Devagar...
Pode alguém
chegar à vidraça...
Nada de
emoções!...
Cautela!
Sim, se mo
dessem aceitaria...
8
Não precisas
insistir, aceitaria...
Para que?
Que pergunta!
Aceitaria...
18/6/1930
8 Em torno do
pronome o, sinal de dubitado, a admitir provavelmente a variante
“se me dessem”.
(Fernando Pessoa – Álvaro de Campos, 2002, Poesia,
p. 365)
140
Grandes são os
desertos, e tudo é deserto.
Não são algumas
toneladas de pedras ou tijolos ao alto
Que disfarçam o
solo, o tal solo que é tudo.
Grandes são os
desertos e as almas desertas e grandes –
Desertas porque
não passa por elas senão elas mesmas,
Grandes porque
de ali se vê tudo, e tudo morreu.
Grandes são os
desertos, minha alma!
Grandes são os
desertos.
Não tirei
bilhete para a vida,
Errei a porta
do sentimento,
Não houve
vontade ou ocasião que eu não perdesse.
Hoje não me
resta, em vésperas de viagem,
Com a mala
aberta esperando a arrumação adiada,
Sentado na
cadeira em companhia com as camisas que não cabem,
Hoje não me
resta (á parte o incómodo de estar assim sentado)
Senão saber
isto:
Grandes são os
desertos, e tudo é deserto.
Grande é a
vida, e não vale a pena haver vida.
Arrumo melhor a
mala com os olhos de pensar em arrumar
Que com
arrumação das mãos factícias (e creio que digo bem).
Acendo um
cigarro para adiar a viagem,
Para adiar
todas as viagens,
Para adiar o
universo inteiro.
Volta amanhã,
realidade!
Basta por hoje,
gentes!
Adia-te
presente absoluto!
Mais vale não
ter que ser assim.
Comprem
chocolates à criança a quem sucedi por erro,
E tirem a
tabuleta porque amanhã é infinito.
Mas tenho que
arrumar a mala,
Tenho por força
que arrumar a mala,
A mala.
Não posso levar
as camisas na hipótese e a mala na razão.
Sim, toda a
vida tenho tido que arrumar a mala.
Mas também,
toda a vida, tenho ficado sentado sobre o canto das camisas
empilhadas,
A ruminar, como
um boi que não chegou a Ápis, destino.
Tenho que
arrumar a mala de ser.
Tenho que
existir a arrumar malas.
A cinza do
cigarro cai sobre a camisa de cima do monte.
Olho para o
lado, verifico que estou a dormir.
Sei só que
tenho que arrumar a mala,
E que os
desertos são grandes e tudo é deserto,
E qualquer
parábola a respeito disto, mas dessa é que já me esqueci.
Ergo-me de
repente todos os Césares.
Vou
definitivamente arrumar a mala.
Arre, hei-de
arrumá-la e fechá-la;
Hei-de vê-la
levar de aqui,
Hei-de existir
independentemente dela.
Grandes são os
desertos e tudo é deserto,
Salvo erro,
naturalmente.
Pobre da alma
humana como oásis só no deserto ao lado!
Mais vale
arrumar a mala.
Fim.
4/9/1930
(Fernando Pessoa – Álvaro de Campos, 2002, Poesia,
pp. 384-386).
143
Começo a
conhecer-me. Não existo.
Sou o intervalo
entre o que desejo ser e os outros me fizeram,
Ou metade desse
intervalo, porque também há vida...
Sou isso,
enfim...
Apague a luz,
feche a porta e deixe de ter barulhos de chinelos no corredor.
Fique eu no
quarto só com o grande sossego de mim mesmo.
É um universo
barato.
(Fernando Pessoa – Álvaro de Campos, 2002, Poesia,
p.390)
153
Não fales alto,
que isto aqui é vida –
Vida e
consciência dela,
Porque a noite
avança, estou cansada, não durmo,
E, se chego à
janela,
Vejo, de sob as
pálpebras da besta, os muitos lugares das estrelas...
Cansei o dia
com esperanças de dormir de noite,
É noite quase
outro dia. Tenho sono. Não durmo.
Sinto-me toda a
humanidade através do cansaço –
Um cansaço que
quase me faz carne os ossos...
Somos todos
aquilo...
9
Bamboleamos,
moscas, com asas presas,
No mundo, teia
de aranha sobre o abismo.*
21/10/1031
9 Variante
sobreposta a “carne”: “espuma”.
(Fernando Pessoa – Álvaro de Campos, 2002, Poesia,
p. 404).
159
Não, não é
cansaço...
É uma
quantidade de desilusão
Que se me
entranha na espécie de pensar,
É um domingo às
avessas
Do sentimento,
Um feriado
passado no abismo...
Não, cansaço
não é...
É eu estar
existindo
E também o
mundo,
Com tudo aquilo
que contém,
Com tudo aquilo
que nele se desdobra
E afinal é a
mesma coisa variada em cópias iguais.
Não. Cansaço
por quê?
É uma sensação
abstracta
Da vida
concreta –
Qualquer coisa
como um grito
Por dar,
Qualquer coisa
como uma angústia
Por sofrer,
Ou por sofrer
completamente,
Ou por sofrer
como...
Sim, ou por
sofrer como...
Isso mesmo,
como...
Como quê?...
Se soubesse,
não haveria em mim este falso cansaço.
(Ai, cegos que
cantam na rua,
Que formidável
realejo
Que é a
guitarra de um, e a vida do outro, e a voz
dela!)
30
Porque oiço,
vejo.
Confesso: é
cansaço!...
(Fernando Pessoa – Álvaro de Campos, 2002, Poesia,
p. 412-413)
160
O horror
sórdido do que, a sós consigo,
Vergonhosa de
si, no escuro, cada alma humana pensa.
(Fernando Pessoa – Álvaro de Campos, 2002, Poesia,
p. 414)
212
Não: devagar.
Devagar, porque
não sei
Onde quero ir.
Há entre mim e
os meus passos
Uma divergência
instintiva.
Há entre quem
sou e estou
Uma diferença
de verbo
Que corresponde
à realidade.
Devagar...
Sim, devagar...
Quero pensar no
que quer dizer
Este devagar...
Talvez o mundo
exterior tenha pressa de mais.
Talvez a alma
vulgar queira chegar mais cedo.
Talvez a
impressão dos momentos seja muito próxima...
Talvez isso
tudo...
Mas o que me
preocupa é esta palavra: devagar...
O que é que tem
que ser devagar?
Se calhar é o
universo... A verdade manda Deus que se diga.
Mas ouviu
alguém isso a Deus?
30/12/1934
(Fernando Pessoa – Álvaro de Campos, 2002, Poesia,
p. 484)
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